Esse blog foi criado a princípio para salvar os textos escritos, em um lugar onde nunca iria desaparecer. Com as novas tecnologias, tenho aprendido a guardar meu texto apenas para mim, e torno públicos apenas os que gostaria que o Pássaro Azul de Bukowski em mim lesse. Com isso, estou atualizando muito pouco o conteúdo aqui.
Para quem quiser acompanhar onde tenho postado coisas novas e com mais frequência:
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https://facebook.com/pordetrasdosmeusolhos
Crônicas do irreal
Um brinde às mulheres que vivem dentro de nós.
Fazia sempre o mesmo pedido; duas garrafas de
cerveja e um copo de whisky puro. A primeira vez que estive ali, um dos homens
que frequentavam aquele mesmo bar atirou contra outro uma cadeira de montar de metal,
daquelas que sempre estão nos bares de fim de vila. Aquilo foi sensacional, uma
cadeira voando, a cerveja gelada, e a violência de homens que afundavam a
frustração dos seus dias rotineiros de chão de fábrica em bebida. Aquele bar
era meu lar. E eu ficava sentado ali uma vez por semana, sempre no meio da
tarde, e depois tomava um ônibus até a faculdade, nunca estava embriagado ao
chegar, mas era menos doloroso aguentar horas de aula com um pouco de bebida no
estômago.
Foi em um dia qualquer, que terminei de beber minha
cerveja, me levantei e fui até o ponto de ônibus. Ele dobrou a esquina, e ver
ele chegando me deixava mais cansado. Sentei no fundo, no último banco, e um
ponto de depois ela entrou. Sua cara fechada tomava conta do ambiente, seu rosto
tinha traços marcantes, como se fosse bem desenhado em um rosto ligeiramente
redondo e magro. Ela se sentou perto de mim, e apesar de ter gostado dela,
jamais teria coragem para perguntar qualquer coisa que fosse, ou mesmo seu
nome. Eu apenas virava o rosto para o lado, enquanto um de meus braços estava
esticado até o banco da frente, fingindo olhar para as casas que passavam pela
janela. Era um bairro antigo, construído pelos antigos ferroviários que
trabalhavam na linha do trem que existia ainda a duas quadras dali.
-Você mora aqui perto, não? - Ela me indagou.
Fiquei surpreso, demorei para responder pois não
queria gaguejar.
-Mais ou menos, estou sempre em um amigo aqui
perto. - Respondi, para não parecer um alcoólatra aos vintes e tantos anos.
-Outro dia pegamos o mesmo ônibus, mas você sentou
aqui atrás e eu lá na frente.
-Nossa, então você está me seguindo? - Respondi em
tom de brincadeira.
-Não, só pego ônibus para fugir de casa um pouco. -
Respondendo de forma grossa.
Conversamos um pouco mais sobre quem era ela,
acabei falando que estava sempre no bar a algumas quadras.
-Você tem cara de bêbado mesmo. - Disse ela séria.
-E isso é um problema?
-Sim, quem bebe sempre e sempre, está fugindo de
algo que não é capaz de enfrentar. São todos uns covardes. Mas não te julgo,
também sou.
Ela puxou a manga de sua jaqueta jeans fina, e me
mostrou os pulsos cortados. Era um pouco estranho o cheiro da sua roupa,
cheirava rosa. Lembrei de quando era criança e meus avós plantavam isso no
jardim.
-Sentimento que não existe além de você? -Perguntei
para ela apontando o pulso.
-Ausência de emoções - ela me respondeu.
Trocamos os números de telefone. Combinamos de sair
naquele final de semana.
No caminho até a faculdade pensei nela em cada
ponto que o ônibus parava. Quando ela desceu, havia um rapaz de cabelos longos
e piercing no nariz esperando. Eu pensei: “Um passatempo quem sabe, uma
tentativa dolorosa de sentir, e sem dúvida, ela não alcançou isso, caso
contrário ela não teria falado comigo, mas falou, e percebeu que eu estava
olhando para ela. ”
Ela era branca, seus cabelos desciam até um pouco
acima do seio, que não eram grandes, mas proporcionais ao seu tipo físico
pequeno. Suas mãos eram pequenas, e seu sorriso não se fez nem uma vez para
mim, apenas pequenos espasmos nos músculos no canto da sua boca quando eu
tentava fazer alguma piada. Ela sem dúvida guardava o segredo do mundo, sobre
amor, sobre sexo. Seus olhos negros e profundos brilhavam sobre a violência que
era sua silenciosa personalidade. Ela guardava algo, e isso me conquistou. Ao
descer do ônibus e pensar nas aulas entediantes que eu tinha, lembrei que
queria dormir.
O final de semana chegou, nunca levei jeito para
encontros, e para minha sorte ela não tentou ser muito carinhosa, era como se
apenas pudesse ver e sentir qualquer satisfação que teria através do seu
sorriso curto e quase invisível. Sorriso este que me fazia querer olhar para
ela a todo instante. E ela sabia disso.
Fomos até um restaurante, comemos e conversamos o resto
da noite, até o restaurante começar a fechar. Contamos sobre nossas vidas,
momentos e paixões.
-E agora? A comida já acabou, isso significa que
podemos terminar a noite bebendo? - Indaguei em tom de brincadeira.
-Achei que fosse tentar fingir que não é um bêbado
esta noite.
-Não dá para esconder, você percebeu antes que eu
falasse. E minha garganta já está seca.
-Podemos ir, mas eu não bebo muito. - Respondeu
ela.
-Ótimo, assim sobra mais para mim.
Finalmente ela mostrou os dentes ao sorrir, em um
sorriso tímido que fez meus olhos brilharem, e como se abrissem algo para
dentro de mim.
Nos levantamos, me ofereci para pagar, mas ela quis
dividir. Fomos para um daqueles bares que funciona apenas de noite, o bar que
sempre estou, nas noites frias ou quentes da minha cidade.
Bebemos algumas poucas cervejas, conversamos um
pouco. Depois de pagar enquanto caminhava até o carro, puxei ela pelo braço,
ela me encarou e mergulhou no meu olhar carregado de tesão que atravessava o
seu. Embora não tenha se movimentado muito, quando tentei beija-la, ela se
lançou em minha direção. Seus movimentos pareciam ter sidos ensaiados, não eram
longos demais e nem curtos demais, aconteciam na sintonia perfeita daquela
noite. O vento não soprava, animal algum fazia barulho. Tudo tinha parado para
nós, ali, bem no meio da calçada vazia. Quando ela se afastou, seus olhos
negros estavam me indicando o caminho para sua essência, e sem mostrar muita
expressão, eu sabia que ela também estava gostando.
Entramos no carro, e continuamos nos beijando. Sua
boca úmida e gelada dançava com a minha. Sua mão atrás da minha cabeça em um
carinho me deixará rapidamente duro. Eu podia sentir meu pau pressionando minha
calça como se quisesse sair. Puxei uma de suas mãos até meu pênis, ela aceitou
e começou a acariciar ele por cima da calça, com sua mão pequena e leve. Disse
que queria transar, e ela aceitou.
Tive que ir para um motel apesar de não gostar,
pois morava ainda com meus pais. No local sentei no colchão com tecido fino
vermelho que imita seda. A baixa luz do local, fez com que uma sombra se
formasse no rosto dela, marcando apenas aqueles olhos que pareciam a lua no
meio da noite escura, e criava um brilho na sua boca fina e contornada. Eu
estava com muito tesão.
Ela sentou em cima de mim de joelhos com as pernas
abertas, fazendo com que eu ficasse entre suas coxas. Começamos a nos beijar
com mais ferocidade. Abri o botão do short preto dela, reparei no piercing que
sua blusa amarela não tampava. Me levantei com ela presa na minha cintura pelas
pernas, a coloquei deitada na cama, tirei seu short e sua calcinha fina
vermelha, ergui sua blusa e chupei um de seus seios, que apesar de pequenos,
tinham o formato de uma lágrima e eram rosas. Desci beijando sua barriga até a
vagina, e comecei a chupar. Ela segurou minha cabeça por trás usando suas duas
mãos, e pouco tempo depois me puxou pelo queixo até sua boca. Nos beijamos
enquanto eu coloquei devagar meu dedo dentro dela, estava úmida e quente, meu
pau latejava de tesão. Durante os beijos, enquanto eu a dedava, ela abria a
boca levemente deixando sair um gemido baixo acompanhado de um bafo quente.
Seus braços me puxaram para cima, ela pegou o short e tirou do bolso dois pinos
de cocaína, abriu um deles, colocou em cima da mão entre o polegar e o dedo
indicador e cheirou. Reparei que os cortes nos braços eram mais profundos do
que um simples amor que nunca aconteceu. Ela pediu para que eu assoprasse a
cocaína no seu ânus. Eu fiz, e depois beijei seu traseiro, a cocaína deixou um
gosto diferente do amargo usual que tem um beijo grego.
Nos levantamos e fomos até o chuveiro, onde a
peguei de quatro por trás, transamos loucamente, sua boceta estava quente e
úmida, e quanto mais meu pau entrava, parecia ficar mais quente e mais úmida.
Reparei que seus olhos negros estavam com a pupila mais dilatada do que antes.
Cheirei um pouco de cocaína em cima da pia de mármore e voltamos para a cama.
Transamos como animais transam para garantir sua sobrevivência. As imagens em
minha mente aparecem como fotos em todas as posições que queríamos, éramos como
duas peças de quebra cabeça que finalmente foram encontradas, e se encaixaram.
Éramos animais dentro de nós, e ali, não precisávamos nos esconder para ninguém.
Mesmo depois de gozar continuamos, até a boca secar, até a garganta arranhar,
até a veia que possuo em minha cabeça quase estourar.
No final deitamos quase abraçados, um de frente
para o outro, ela me olhou e sorriu. Aquele sorriso deveria ser petrificado,
era singular, não mostrava todos os dentes, mas mostrava sua alma, que se
escondia debaixo de um véu de sofrimento que ela nunca conseguia tirar.
-Fazia tempo que não me sentia uma pessoa como
hoje. - Ela me disse.
-A gente pode repetir se quiser.
-Não sei, as vezes só é único porque acontece só
uma vez.
Fiquei um pouco chateado com a resposta, tinha sido
bom, deveria acontecer mais uma vez, mas ela não era qualquer pessoa. E isso
mudava tudo.
Eu sem dúvida poderia me apaixonar. Apesar de fugir,
senti que com ela todo os meus erros, eram apenas erros, e não quem sou eu.
Todas minhas aflições, todas as vezes que faço alguma merda, seriam esquecidos,
pois vivíamos na mesma natureza. Ela se cortava, e eu bebia, cada qual a sua
maneira fugia de algo. Mas no fundo éramos durões, pelo menos era o que sempre
mostrávamos para o mundo real.
Semana seguinte, eu estava sentado no mesmo bar,
outra briga daquela nunca mais tinha acontecido, e pouco antes do ônibus
passar, meu telefone tocou. Precisava voltar até minha casa, para ajudar meu
pai que estava internado por pressão alta. “Não vou ver ela hoje”, pensei, já
que se tratava do dia em que ela pegava aquela linha. Mas fiquei de pé,
esperando o ônibus passar, no celular enviei uma mensagem falando que não iria
subir nele, mas que iria esperar ela passar.
O ônibus dobrou a esquina, a vi sentada naquela
janela, seus olhos estavam deprimidos, eu fiz um sorriso e ergui a mão para
acenar, ela acenou de volta e sorriu com um sorriso forçado e tímido. No celular
perguntei o que estava acontecendo, mas ela não me respondeu e nem me retornou
as chamadas.
Na semana seguinte perguntei sobre ela para o dono
do bar, já que ele conhecia todos ali. Quando dei as características dela, ele
me disse que seu pai era um velho amigo. Esfregou o pano velho que mantinha no
balcão e com um olhar pesado me disse:
-Semana passada ela saiu de casa, e fugiu para a
casa de um tio em outro estado. No caminho desceu em um posto e usou cocaína
demais. Teve uma overdose bem ali. Deixou uma carta de adeus, dizendo que tinha
esperança em se mudar daqui para mudar de vida. Não deixou o nome de ninguém,
apenas explicou porque ia para outro lugar.
Fiquei chocado, pensei nela a semana toda e na
semana seguinte mudei de bar. Fui para um mais vazio, e que passava outra linha
de ônibus.
Os opostos se atraem
Os opostos se atraem.
E foi assim que o destino fez ficarmos lado a lado.
Mas agora minhas lágrimas caem.
E eu sempre soube ao que fomos fadados,
Cada um em seu lugar,
Distante o suficiente
Para não pode amar.
Mas ainda amo,
A física não é tão é perfeita,
E queria que este amor ainda existisse em ambos,
Mas agora não há mais nenhuma suspeita,
De que já não existo mais,
Dentro da sua mente perfeita,
Dentro da sua poderosa paz.
Eu sei que destruí,
Eu sei de muita coisa,
Inclusive que nunca fui capaz,
De criar em você o que sempre pediu,
Esta paz.
Talvez eu seja feito de guerra,
Mas dizem por aí,
Que todo ser humano erra.
E achei que por isso teria mil e um perdões,
E não que fosse acabar desejando estar a 7 palmos debaixo da terra.
Você me chamava de meu leãozinho,
É por isso que devo viver para sempre entre os leões,
Na minha natureza selvagem.
Ah, Einstein,
Você deveria ter explicando para a gente,
Que opostos se atraem,
Mas nunca é para sempre.
Ela não se lembra mais de mim
Ela
esqueceu de mim, ela esqueceu quem eu fui ou sou. Meu sorriso e meu
jeito engraçado de sempre fazer uma piada com tudo, talvez não estão
mais naquilo que ela chamava antes de “sua melhor qualidade”.
Escrever
sobre isso faz com que todas as pessoas pareçam insignificantes, mas
não são. A verdade é que eu me diverti de mais, e me acostumei com o
legal em tudo. Eu já não sinto ou vejo as mesmas coisas com via antes.
Eu gostaria de não ter que dormir longe do seu perfume.
Compreender
que você entrou naquele espaço onde se torna apenas mais um, que é
deixar de ser uma pessoa e se transformar para o que é apenas uma
memória ruim do que já não se lembra mais, é a pior de todas as
sensações. Não adianta ser bajulado, não adianta fingir que não me
importo, eu sinto falta da mão dela no meu pouco cabelo, sinto falta do
seu abraço prolongado e dos mimos que teria no dia de hoje.
Certo
dia estávamos deitados junto em uma noite com uma lua igual a de hoje,
grande e branca. E tudo o que ela pediu foi que no meu dia, estivéssemos
apenas eu e ela, no fundo eu sei que minha presença agradava sua
pessoa, no fundo eu ainda lembro de como ela relutava para ficar perto
de mim e longe de todo o resto. Entendo isso como algo bom, a gente quer
tudo o que é bom para gente sem que o mundo toque, e foi esse o
problema, o mundo me tocou demais e eu me transformei. Se tivesse me
mantido no menino nerd de cabelos compridos do primeiro colegial, e o
destino tivesse cruzado nossos caminhos, sem dúvidas não faria com que
minha musa me inspirasse dor e saudade.
Passei
o dia esperando um email, esperando uma mensagem, algo que dissesse
“ainda lembro de você”, “sinto muito por nós”, isso faria eu entender
que de alguma forma eu vali a pena, que de alguma forma eu pude oferecer
algo bom; mas eu tenho o nada, e é tudo o que tenho, e é isso, é isso
que agora me faz estar aqui longe de todo o resto. Distante de mim,
distante do mundo.
Ela poderia ter assoprado as velas comigo, mas eu sei, que ela nem lembra que hoje foi meu dia.
Eu
espero que um dia apenas, ela lembre-se de ler alguma coisa minha, e
saber que ainda sinto o mesmo que sentia da última vez, e que entenda
que me cobro por tudo ter dado errado.
29/04/1996 foi quando tudo começou a dar errado.
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