Um sonho da noite passada.



Tomei meu remédio engolindo-o quase a seco, e fui me deitar pois havia acordado cedo e estava cansado. Meu corpo se confortou entre minha cama de solteiro e o lençol limpo com aquele cheiro de recém lavado do amaciante. Em pouco tempo peguei no sono.
Sentado sobre uma poltrona de napa marrom e já batida, escutando o barulho da forte chuva que há tempos não ouvia, meu olhar travado e minha perna com certa impaciência estavam esperando por uma só coisa, aquela pequena de pele branca e baixa, sua mão levemente áspera mas deliciosamente em serem tocadas, na verdade, havia certo êxtase glorificante em poder toca-la.
Me lembro de quando apoiei minha cabeça sobre seu ombro e pude apreciar o perfume de seus cabelos, que deveriam ser mais belos caso negros como os meus, mas não era do tipo em que se olhava e se dizia estranho, adornava maravilhosamente mesmo sendo mesclado, mas sempre preferi os cabelos negros.
Com passos pesados e lagrimas nos olhos, que ficam belos quando brilham contra a luz, ela veio, olhou diretamente para mim e com meras palavras partiu tudo aquilo o que eu poderia ter criado, ajoelhou-se em modo de respeito pelos meus atos, embora sua ações tenham sido boas, aquilo me foi irrelevante, pois suas palavras significavam um pesar que eu sempre temi, a ida de todos. Aquele meu medo antigo me possuía, mas a minha razão me diziam para escutar aquele sentimento sublime que ainda fazia meu coração doer, porem como poderia aceitar tais fatos se eu me dediquei como um verdadeiro homem honrado a ela? Nunca a trai, nunca menti e agora havia tudo ido embora.
Sempre acreditei no antigo ditado de que colhemos o que foi plantado, mas tanta dor, tanta decepção havia explicação? E de dentro do meu sonho percebo que estava em outro sonho, acordo sufocado pelo próprio medo, e vejo que não estou sozinho, que aquela sua mão já citada, que parecia fazer com que exorcizassem os meus demônios quando era tocado, estavam acariciando levemente meus cabelos, mas o medo de fora de minha mente levava-o até lá dento e me proporcionava a sensação de estar sufocado. O amor sempre me foi um fantasma, e se você os teme nega sua existência, e assim sempre foi, mas naquele sonho estava tudo tão confortante, a luz pela janela fazendo parecer o natal, época que agracio tanto, seu perfume doce lembrava o cheiro de minha mãe, me dando conforto e amparo. Mas o medo lá de fora me sufocava dentro de minha mente, eu sabia que isso significava, que deveria ter uma vida.
Em um daqueles relapsos de memória cenas psicodélicas me surgem, ela deitada sobre rosas como a capa do filme "Beleza Americana", logo após ela cavalgando como Lucrécia Bórgia nas úmidas florestas da Romana a procura de Paolo seu amante, e logo após, aquele desenho que ela me fez e minha mão junto da sua, apenas esta imagem, dois braços e duas mãos se entrelaçando de forma que fazia aquela pitoresca praia a frente parecesse o paraíso.
A chuva era real, ela me acordou de todos os sonhos e níveis do psicológico, eu estava suado, com lagrimas aos olhos e dando altos suspiros, eu realmente estava sendo sufocado pelo meu próprio medo, talvez eu devesse ser libertado ali, do medo de que aquela cicatriz deixada fizesse com que o pássaro azul dentro de mim, o mesmo pássaro citado por Bukowski, saísse cantando livremente, mas sabia muito bem que não seria com ela que encontraria a felicidade, pois seu estereótipo cabia ao meu e a perfeição da estética nunca precedeu o sucesso duradouro , sabia muito bem que ela estava feliz e como isso me bastou percebi que eu já estava apaixonado.

Murilo L. Carvalho
O texto foi escrito por mim, quaisquer semelhanças é mera coincidência.

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