Ela me ensinou a chorar

O tempo é relativo quando você sofre, faz apenas 2 minutos que estou olhando para a folha em branco, buscando uma frase para iniciar meu texto sobre o que sinto, mas parece que estou aqui faz horas, com lagrimas nos olhos, e um sentimento destrutivo dentro de mim, uma saudade imensurável, criando expectativa de que minhas mensagens cheguem em algum momento, e ela diga que minha falta sentiu uma vez mais.
"Mas a falta é a morte da esperança", espero que não demore muito tempo para tudo isso ir embora, inclusive suas memorias, e aquele flash do seu sorriso que acontece de tempo em tempo em minha mente, que o destino pare de brincar e colocar gatilhos que disparam as lembranças daqueles momentos, momentos que eu clamo para voltar a tê-los. Mas o tempo é relativo, e parece que estou caminhando contra o impossível, como aquele vento gelado que bate de frente com seu rosto em uma manhã fria, você tenta virar a cabeça ou abaixa-la, mas ele ainda rasga sua pele com uma ferocidade. Nesse caso minha pele é minha mente, e o vento frio que não me deixa escapar, é aquele olhar negro e profundo, aquele sorriso ingênuo e verdadeiro. Eu escrevo quase sem enxergar a tela, talvez seja melhor assim, pois dai consigo enxergar apenas o que há dentro de mim, e talvez botar isso num papel para me aliviar, já que não sou passível de uma certa compreensão alheia. E só de pensar nisso, lembro dos olhos delas atirando contra os meus, com serenidade, dizendo o que ninguém disse, vendo o que ninguém viu.
Eu sentei aqui buscando metaforizar tudo, mas parece não existir sinônimo, ou comparação cabível e suficiente para essa guerra interna. Não tem como explicar se eu não dizer o que realmente quero dizer. Não da para coloca-la em uma praia dessa vez, ou em um carro, ou em um sonho, pois ela esta dentro de mim, mais viva do que qualquer mundo paralelo que eu pudesse explicar. A verdade deve ser escrita sem medo, pois isso vai me causar muita dor.
Ela me ensinou a chorar, parece uma piada de mal gosto, você nasce chorando, não tem como aprender. Mas não é do choro em si que eu escrevo, e sim daquela permissão que você da para sentir o suficiente para te fazer chorar, aquela intensidade que eu não tinha coragem de mergulhar. Era mais fácil passar os finais de semana sem sobriedade, me jogando em corpos aleatórios, atraído apenas pela beleza física, pela superficialidade dos corpos. E foi assim que ela me aconteceu, eu já escrevi um milhão de vezes, mas preciso escrever de novo sobre a primeira vez que a vi. Ela vestia preto, seus olhos eram pretos, porem o preto não a vestia,ela não precisava se preocupar que a cor de suas vestimentas a levasse algum ar obscuro pois seu olhos carregam uma luz que vem de dentro, de algum intrínseco e abstrato, seu sorriso singelo, que parece ter sido desenhado por algum artista, pois era expressivo como o Klimt, enigmático como Pollack, e surrealista como Dalí, você simplesmente não teria conseguido ver metade do que vi, você primeiro teria que aprender a observar, e nem metade das pessoas que conheço fazem isso, e é por isso que eu gosto de arte, porque eu aprendo a observar e interpretar o mais subjetivo, e digo com todas palavras, eu podia vê-la daquela forma em um quadro, o sorriso da Mona Lisa não me causou metade do que o sorriso dela foi capaz de causar. Ela vestia preto,  seu olhar era profundo, carregado de sentimento, o sorriso incomparável, era a janela para sua alma, e logo de cara percebi que ela era daquelas pessoas que causa impacto onde se encontra, daquelas que toma seu espaço apenas por ser quem é, sem precisar de algo a mais, e sinceramente não acreditei que iria conseguir beija-la, ela já de cara parecia um mundo distante do meu.
Eu vivia uma vida de festas, bebida e mulheres, qualquer garoto de 16 anos quer isso para sua a vida, mas eu fazia isso desde os 15 e já não aguentava mais o vazio da segunda-feira. Mas nunca acreditei que fosse ter algo diferente, já havia passado por experiências que me marcaram profundamente, e não esperava mais nada de ninguém. Mesmo assim a chamei depois daquela festa,  contudo sem êxito, deixei para lá. Eu a via em vários lugares, me lembro do mesmo olhar e sorriso em um outro local, dessa vez ela vestia bege, uma calça rasgada, e vestia ainda o mesmo sorriso, e o mesmo olhar, eu comentava com meus amigos, pedia para eles olharem para ela e ver como ela era bonita, eles não viam tudo o que eu via, diziam que ela era bonita e paravam ali, na beleza física, não diziam nada sobre seu sorriso seu olhar, ou até mesmo seu jeito de caminhar, porem nunca fui atrás, nunca corri atrás de ninguém, imagina de quem me ignorou.
Felizmente tudo mudou, não foi na vez que a vi com uma blusa azul e branca, ou com outra blusa preta em outra festa, mas sim quando estávamos com trajes passiveis de comicidade, eu a vi diversas vezes, a vi sorrir e sempre admirei aquele sorriso, e dessa vez ela veio até mim. Já se iniciando em minha vida diferente de tudo o que já me tinha acontecido, de forma única tudo isso vai muito além, o assunto ainda é como ela me ensinou a chorar, mas primeiro preciso mostrar como ela me ensinou a desarmar aquele escudo que não deixava penetrar nada e nem ninguém, que virava as costas para as pessoas no primeiro erro, sem querer acreditar que tudo poderia ter um fundo de realidade diferente do que parecia.
O assunto ainda é, como ela me ensinou a chorar.
Ela entrou dentro de mim naquele vazio, os flashs que tenho de seu sorriso vem do espaço que ela tomou dentro de mim, seu perfume poderia nunca mais sair do meu olfato, seu coração poderia pulsar a todo momento em meu ouvido, eu queria senti-la sempre, seu corpo produz o mesmo que uma droga em mim, me causa felicidade como nada mais consegue, nem mesmo qualquer droga, e por isso eu a trocaria por qualquer coisa, lugar ou festa. Ela me ensinou a chorar, assim como me ensinou a querer ter paz, como me incentivou a fazer coisas que eu não acreditava que era possível, que me surpreendeu como uma inteligência colossal e um ponto de vista do mundo que acabou virando meu mundo. Ela vive dentro de mim, ela segura a minha mão e me puxa sempre que estou indo, disse o que ninguém me disse, me fez ver o que nunca quis ver, e ouvir o que eu não queria ouvir. Ela me deu seu colo, e seu ombro, e disse que ali eu poderia ficar, e essa segurança tomou tudo, aquele sorriso virou minha rotina e agora não consigo viver sem. Ela me ensinou a chorar porque ela me ensinou que posso amar, me deixou confiar, me contou seus segredos mais profundos e disse que deles eu podia cuidar. Seu coração abriu a porta para o meu, e agora não quero sair, não consigo sair.
Eu sou guerra e ela paz. Mas agora quero ser paz também, quando estou em seu colo até meus demônios mais truculentos querem ficar calmo, eles sentem que existe um lugar seguro, e que nada pode me afetar.
Eu temo, temo acordar novamente e não poder enviar um bom dia, temo olhar em seus olhos e ver apenas ódio, eu temo ficar sem ela.
Eu acreditava que todos se vão, e vivia sendo essa minha única certeza, mas agora quero que ela vá, não quero acreditar mais nisso, eu me acostumei com sua presença, me acostumei com seu cheiro e sua voz. Me acostumei a poder ser quem eu sou, em um lugar onde posso confiar que não vão me machucar.
Eu sei quem eu sou, sei que no fundo tenho muita coisa boa ainda, coisas que não se apagam, mas que camuflei com ódio e violência porque não quero que ninguém toque ali, não quero me frustrar, contudo ela já esta la, ela veio dali, daquele lugar, e agora esta mudando tudo o que tenho. E eu estou querendo mudar, não existe conforto maior do que mudar dentro da sua zona de conforto.
Eu aprendi a ser tudo o que ela esperava, mas por não ser nada disso a muito tempo, eu acabo tropeçando no meu próprio pé, e quando caio a machuco, mas o coração dela é tão poderoso, é tão único e bom, que ela é capaz de me levantar e ainda me ajudar a voltar a caminhar.
Eu vivo uma escravidão  da qual eu sou o rei, eu não consigo fugir, eu a todo momento sou estimulado a tentar fazer o bem, sem esperar nada em troca, alguem que sempre esteve longe da minha realidade. Mas sou tratado como um monarca, pois é um privilegio estar aonde estou, ver o que só eu posso ver, e sentir o que só eu posso sentir, mas é uma tristeza eu não conseguir demonstrar metade disso.
O assunto não é mais como ela me ensinou a chorar, mas sim como ela existe dentro de mim, e como para sempre vai existir.
Minha única certeza era a morte, mas agora minha única certeza é que estou vivendo, estou sentindo e não quero sair daqui, quero estar cada vez mais neste lugar, nesta mansão no alto do morro de onde posso ver toda a cidade abraçada com ela, um privilegio e um lugar para poucos. Não me valeria nada estar do lado de alguém que poderia me oferecer este mesmo lugar, mas que eu não pudesse vê-lo com totalidade.
Eu penso nela nesse exato momento, lembro de sua mão macia segurando a minha, de seu sorriso espontâneo por alguma piadinha ruim, lembro de um jeito explosivo e grosso que sempre era seguido por uma risada quando comigo. Lembro daquele anel e do medo que ela tinha de perde-lo, lembro de suas lagrima e de sua necessidade de um abraço, sua simplicidade e sua grandeza, mostradas através de pequenas coisas, como uma musica que ela me mandou, uma ajuda que ela ofereceu, um beijo que ela me deu. Pequenas coisas que compõe grandes sentimentos, um abraço apertado quando precisei em uma noite fria, um lugar no mundo que ela me ofereceu.
Ela é simples e grande, eu sou pequeno e complicado.  Somos os opostos, e nossa oposição talvez nos afaste, mas segundo a física os opostos se atraem.
Esse texto demonstra um amor impossível, uma rosa que queima aos olhos de quem vê, algo belo que é violentamente apagado por outro, mas que separados ambos tem sua beleza, ambos tem sua função. A rosa, que mostra beleza para qualquer um que vê, e o fogo, que as vezes clareia, mas no final das contas ele consome para isso.
Sempre foi fácil escrever quando os sentimentos eram simples e passiveis de serem postos em metáforas, admito que lendo dois textos meus, você nota que este é simples e direto, não conseguiria falra de outra forma a realidade dentro de mim. A qualidade do texto pode ser inferior, mas o sentimento é mais potente, o suficiente para suprir todas minhas palavras,
Eu queria segurar a mão dela, saber que ela não me soltaria, queria ser o moreno de barba do pressagio dito a ela, queria que o mundo olhasse para nós e dissesse que o amor é lindo, e que não só um morador de rua, um homem carente de qualquer amor fosse o autor da frase que define nossa beleza.  Mas eu sou complicado, e ela simples, eu sou a Fera e ela a Bela, mas como no Yin Yang, existe um pedaço do bom no mau e um pedaço do mau no bom, nos somos talvez o equilíbrio do outro. Porem o tempo é relativo quando você sofre, e a falta é a morte da esperança, e talvez tudo isso morra antes de existir. Assim como a lagrima que acabou de cair vai secar antes que ela possa enxugar.
O assunto se encerra, mas o sentimento não.

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