A
rua era bem larga, eu estava sentado na calçada em frente a um bar, desses bem
baratos e sujos, onde o dono usa a mesma regata todos os dias. Notei que já
havia escurecido, havia passado pouco tempo desde que o sol havia se posto.
Observava a rua, e de longe avistava apenas os faróis que de pouco iam se
transformando em carro, as vezes com uma pessoa, as vezes com varias, em sua
maioria com algum tipo de uniforme, ou padrão de roupa que você sabe que não é
algo que eles usam socialmente. Em sua maioria são camisas sociais de cor
clara, ou alguma roupa de tecido grosso para aqueles que possivelmente
trabalham em fábricas. "Está é a cidade dos sonhos" pensei eu por um
instante, vivo na cidade do sonhos, pois a maioria deles se formaram em alguma
das boas faculdades da região, frequentaram as festas épicas e reconhecidas
nacionalmente, e agora estão ai. Sentado em seu carro, sozinhos, levando quem
sabe uma vida medíocre como a minha, construindo um tapete vermelho que os leva
para a morte, e nada além disso. Completei meu copo com cerveja, e dei uma
longa golada. Senti o sabor, e minha garganta se molhar. Mas que droga de sonho
é esta cidade, pensei eu, viver alguns anos em seu auge, distante do mundo
real, preenchendo as cabeças com teorias que nunca iriam funcionar na vida
real, que não se aprende a viver fora dos campus universitários. Pensei por um
momento, sobre tudo o que já havia feito, e o que talvez tudo representasse
para mim; Me inscrevi em um desses cursos universitários logo que sai do ensino
médio. Minha vida sempre foi repleta de erros bem intencionados, quando mais
jovem nunca consegui me manter próximo de alguém por muito tempo, sempre
destruía tudo. Nunca consegui acertar, sempre falei quando deveria me calar, e
calei quando deveria falar. Não havia nada em mim, que eu quisesse conhecer
mais do que já conhecia, nada me agradava, nunca produzi vaidade sobre nada do
que soubesse fazer. Sequei o copo em outra longa golada, e me servi mais um
pouco. Com certeza não ficaria embriagado, havia sentado com o dinheiro apenas
de uma garrafa no bolso, e já que não havia nada a mais, era impossível me
embebedar, mesmo que sentisse essa vontade. Tinha pensado até ali, sobre as
inúmeras possibilidades, e como sempre fui egoísta ou arrogante o suficiente em
muitas delas, pensei em como nunca havia feito a coisa certa. E como sempre a
minha vida, esta vida repleta de erros bem intencionados, copos vazios e beijos
já marcados pelo gosto de outras bocas no final das festas, a minha biografia
sempre foi uma metáfora do que romantizam nos filmes e nos livros, sendo que
tudo isso é uma tragédia para o ser humano. Uma biografia sem final feliz,
pensei, onde apenas empurro cada dia atrás de outro dia, esperando apenas que a
cerveja nunca deixe de gelar. E que o grande evento que se encerra a vida que
chamamos de morte, venha acontecer, para que cada erro e cada sentimento ruim,
se esvazie, e apenas olhem para mim, pelo pouco que talvez tenha conseguido
ser, e que prevaleça ali apenas os pequenos e efêmeros momento dos quais,
consegui arrancar daqueles que me cercam, alguns sorrisos. Respirei
profundamente, matei o resto da garrafa em goles rápidos. Por um instante
pensei que aquela deveria ser a cidade dos sonhos realmente, onde eles começam
e terminam, quando deixam de ser sonhos e se tornam vida real. Olhei para o
dono do bar: -Até amanhã - lhe dei o dinheiro da cerveja. -Seu troco - ele me
disse. -Fica com ele, guarda para comprar uma camisa nova. Virei de costas, e
caminhei até em casa.
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