O nada, o vazio, aquilo que só existiu na minha própria mente, vai tomando uma forma, e vou entendendo com o tempo que sempre estive no mesmo lugar, nada nunca foi diferente do que é agora.
Eu gostaria de ser meu mais íntimo amigo, existir prazerosamente nos lugares mais profundos de mim, mas não sou coisa alguma, nem para mim, nem para ninguém. Nesta manhã, como mais uma em outras tantas, a única coisa que senti ao acordar foi o bafo de cerveja no travesseiro, e eu gostaria que não fosse assim, mas que ela estivesse aqui, para puxar meu rosto e me beijar. E mesmo não sendo o halito das manhãs o aroma mais agradável, ainda sim seria melhor do que sentir esse amargo cheiro que me amarga antes de levantar.
E o sorriso dela é mais verdadeiro agora do que sempre foi, e parece existir por mais tempo, sinto muito por faze-lo se apagar em meio a minha solidão insaciável, que fazia com que estivesse sempre procurando aquele abraço com o encaixe perfeito para meu corpo, que sempre aparecia com rastro de lagrimas que secaram na bochecha, ou até sem razão, as vezes só para conseguir sentir meu coração pulsar em um lugar quente que realmente me quisesse. É tão difícil ter que olhar agora para tudo, principalmente nessas noites em que quase explodo de tanto sentir, procurando uma razão para tentar fazer as coisas serem normais estando sozinho.
Semana passada escrevi um livro quase inteiro só para falar daquele momento que a vi vivendo em outro lugar, e agora vejo todo dia antes de acordar, seu sorriso nascendo, existindo e morrendo, como a rara passagem da vida que pude viver próximo dela. Será que eu vou ter que continuar lembrando o preço de ser quem sou? Sei que sempre tive muito potencial aos olhos castanhos e carregados de sentimentos ingênuos que (só) ela tem, em conseguir criar e fazer existir, mas parece que tenho um valor inerente, e é ele que me joga contra as paredes que sempre levanto, ele derruba tudo o que eu mesmo construo, com a mesma intensidade que posso lembrar de cada detalhe da sua mão cheia de riscos, que antes deslizavam quase sem tocar a minha nuca enquanto estávamos sozinhos, era leve e sutil. E essa solidão que é feita de um só, eu deveria ter aprendido isso, para não ter acostumado com a solidão a dois que eu mesmo inventei quando estávamos só nós.
Estou a uma semana e dois anos da data que tudo começou, estou a uma semana e dois anos de quando percebi que nossa simetria era feita de forma oposta uma da outra, como o sol e a lua, em uma dança eterna e perfeita que faz o mundo parar, descansar e admirar, como fazíamos em nosso mundo. Mas eu sei que destruí toda essa mágica que existia, mesmo sem querer, o medo de perder a fez ir embora, e ir embora diz a respeito de ter fugido dos sentimentos que eram meus dentro dela, uma gaveta vazia que vai se enchendo de memórias e lembranças de outro alguém.
Agora a única coisa que posso fazer é focar naquilo que ainda existe, a dor que tento matar, ou pelo menos anestesiar, cada copo vazio parece me fazer sentir melhor. E quando vejo outro cheio, preciso tentar me deixar melhor de novo, e assim sigo a noite toda, quase todos os dias.
Mas a máxima que eu esqueci desde quando ela apareceu, é que isso vai sempre acontecer, não há outro caminho, minha vida é feita de partidas e eu preciso aprender a lidar com cada uma delas. Cada saída, cada corrida para mais longe e longe do que eu sou. Queria sair com a mesma felicidade que vejo as pessoas partirem de mim, invejo a facilidade que parecem ter para ficar longe daqui. Mas acho que existe algo que nunca vou poder consertar, é uma ferida que nunca vai se fechar, e tudo o que sempre posso oferecer está antes do meu potencial, algo que ninguém deveria enxergar para não se enganar.
Quem sabe eu consiga recomeçar bem longe daqui, em uma tentativa desesperada de mudar o estado em que vivo.
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