O dia B

Sempre soube que não deveria ter me distanciado do guia, agora estou aqui nesta viela, o chão é todo em pedra, devem fazer uns 500 anos que colocaram essa pedras, as casas ao redor são todas iguais e parecem estar apoiadas uma sob as outras, o sol do mediterrâneo queima minha pele. Mas apenas preciso me focar em encontrar o caminho que me leve de volta até as mesmas pessoas. Subi uma íngreme ladeira onde em seu alto existe apenas uma casa, bem simples, uma horta no fundo quase caindo no barranco e varias arvores, a sua frente é possível ver um banco e algumas arvores para algum casal de velhos, resolvi me arriscar e bater a porta. Após quase 4 tentativas eu estava indo embora, mas escutei como se fosse um trinco naquela porta de madeira toda talhada a mão que logo se abriu, a frente da casa possuía um leve tom de cinza e as janelas quadradas e de madeira velha estavam cobertas por uma cortina branca. Quando a porta se abriu, senti o um raio me atingir, meu corpo perdeu toda sua reação e minha mente se focava apenas naquele rosto, branco, com lábios carnudos, o cabelo liso e os olhos num castanho claro quase verde, ela era pequena, mas parecia tão grande por ter me dominado daquela forma, com um leve sorriso mostrou seus dentes que eram grandes mas lindos. Ela achou engraçado o fato de eu ter perdido toda a minha noção de ser e estar ali apenas para uma informação. Quase gaguejando arrisquei meu inglês, perguntando aonde encontraria determinado hotel no qual estava hospedado - as paredes da casa pareciam ter ficadas brancas olhando para aquela imagem - mas ela parecia não ter entendido, então com um gesto de mão ela ofereceu um telefone pois notou que provavelmente eu estava perdido, o povo daquela região sempre foi muito receptivo. Entrei-me a casa, tudo parecia ter sido feito na época da macedônia, a casa possuía arquitetura Grega, o piso era de uma pedra que parecia mármore, talvez fosse mas não saberia reconhecer, o cheiro de um olival próximo parecia inundar a casa, de frente a porta de entrada possuía uma escada a direita e a frente a cozinha com quase todos os móveis em madeiras que pareciam ter sido esculpidos a mão. Andei atrás dela, mas não pude deixar de reparar, ela andava descalça com um vestido branco, sua beleza refletida em alguns vidros da casa me lembravam as grandes esculturas que vi sobre Atenas quando cheguei, faltava apenas uma daquelas coroa de folhas para eu acreditar que estava na presença de um antigo ser mitológico. A segui até o telefone, disquei para o número do cartão do hotel que guardei na carteira já imaginando que usaria para alguma emergência, o telefone estava mudo. Em sinais tentei dizer que não conseguia ligar, então ela veio até próximo de mim - sua respiração era ofegante, seu perfume indescritível - com os olhos baixos em direção ao telefone sobre uma bancada de madeira também velha coberta por um pano branco, ela tentou discar alguns números, nesse momento um vento forte invadiu a casa, hasteando as cortinas como se fossem velas, ela desligou e correu para fechar as janelas mas o vento entrou contra ela, jogando seu cabelo e movimentando seu vestido de tal forma que parecia que estava na praia sentado na areia branca daquele local vendo ela correndo em direção ao mar. Que sensação era aquela pensei. Neste momento, notei ao lado de um sofá velho e surrado uma bancada com um retrato dela e de um homem, cabelos negros, nariz grande, aparência notável e bela. Logo ele deveria chegar até a casa, e talvez eu devesse ir embora, naquela região eles costumavam brigar por muito menos, mas então assim que fechou a janela grande parte da luz se perdeu a deixando mais bela, por um momento e novamente eu perdi minhas reações a encarando, ela neste momento olhou com certo tom de seriedade e foi em direção a porta da sala, a abriu e com um gesto do braço fez que eu deveria sair, eu respeitei, me levantei e fui até lá. Porem enquanto passava pela porta, tive de me virar pois ela ficou parada olhando para baixo, eu a olhei e fiz um gesto de agradecimento, neste momento ela então me olhou me empurro contra o batente e me beijou, aquele beijo foi como um soco na minha face, parecia que eu tinha desmaiado e estava acordado ao mesmo tempo, metade de mim em algum lugar perdido e a outra querendo sair dali logo, uma sensação que não se pode descrever em palavras ou filmes. Seus lábios juntos do meu, seu corpo colado ao meu, gostaria de ter ficado ali para sempre. Um forte barulho, parecia um trovão, então acordei suado, o lençol estava no chão pela janela eu via pingos começarem a cair como se fossem lágrimas, e sob uma comoda ao lado da cama vi a foto, minha e de minha mulher, a mesma do sonho, a mesma que havia falecido a algumas semanas.

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