Aquilo que nunca muda

Havia prometido a mim mesmo que jamais me deixaria levar e ser controlado pelas emoções, que viveria algo concomitante a tudo aquilo que sentia, que guardaria a mediocridade de meus sentimentos, e que jamais os mostraria novamente, mas cá estou, procurando lugares com copos cheios e almas vazias, buscando apenas a mesma cosia que procurei: saciar e matar o que ainda pode estar lá dentro.
Os papéis são brancos, e conforme escrevo vai sendo preenchido, o que existe dentro de mim é o inverso, seria um papel cheio de palavras ilegíveis que vou apagando até tentar tornar um total vazio, assim como um papel branco sem palavra alguma.
Enquanto muitos se arrependem do que pouco fizeram e que sempre desejaram ter feito mais, e acabam escrevendo em seu epitáfio palavras que implicam um arrependimento de não terem vivido a verdade, eu me coloco ao inverso, sempre me deixei levar pela intensidade e tentei abstrair ao meu máximo as coisas mais profundas e pequenas de tudo o que pude partilhar e viver até agora, que mesmo pouco, já me vejo como muito se comparado a muitos outros que vagam em uma vida, ao invés de terem tentado preencher toda a disponibilidade com as oportunidades apresentadas.
Lembro-me de estar de pé, em meio à multidão, som alto e muitos vagos sorrisos, mas não aquele, com certeza não. Olhos negros, pele branca, cabelo negro e  traços desenhados, como se tivesse sido feita sob medida, um sorriso carregado de sentimentos bons que eram contraditos pelo olhar baixo de uma péssima memoria. Tempo perdido talvez fosse o seu motivo, mas não me atentei muito a aqueles que a cercavam, e sim apenas a ela, e continuei naquele ambiente por tempo o suficiente para que pudesse vê-la se esconder mais vezes, talvez eu tenha certo refinamento para reconhecer a tristeza e a felicidade, ou talvez eu apenas seja mais um louco que acredita nessas energias que podem ser transmitidas, os olhos e um sorriso são a janela da alma, da para sentir o fluxo de algo verdadeiro quando sai dali.
Acabei andando por outros lugares, e a perdendo de vista, acabei beijando outras bocas, e até ganhado sorrisos tão puros quantos, mas que eu sabia que apenas existia como a ponta de um icerberg, o que é visível a olho nu jamais corresponde a tudo o que realmente é, mas eles não me interessavam, voltei para o lugar onde estava e fiquei atônito em ver que ela ainda estava sozinha, como podia ninguém tê-la notado e tentado roubar aquele sorriso para si? Com certeza fui até ela, e em um fluxo perfeito a beijei, eu estava embriagado, mas essas sensações mudam completamente o seu eu, tiram toda a alucinação causada pela bebida, que apenas toma para preencher ou matar algo dentro de si, não me fazendo disso um alcoólatra, mas talvez um suicida que quer matar o que vive em intensidade para poder viver com mais calma. Mas, nada disso me importara ali, eu a beijei em diferentes momentos daquele lugar, e em todos eles eu não queria solta-la, pessoas assim você conhece no máximo umas três durante sua vida e eu sabia que jamais iria poder sentir toda aquela energia tão brevemente de alguém novamente. Era verdadeiro, era profundo, era como tudo o que eu escondia.
Tempos se passaram festas e mais festas, beijos e mais beijos, sorrisos e mais sorrisos, mas nos éramos completos estranhos, eu a observei ainda em diferentes lugares e momentos, as pequenas coisas ainda estão presentes em minha memoria, mas nunca achei que isso fosse me afetar, sempre acreditei que isso era o que eu deveria aprender e ter para minha vida, brevidade e superficialidade nos sentimentos, e que minha percepção talvez um pouco refinada fosse apenas para ajudar aqueles que me cercavam, e nada além disso.
Mas assim como seu batom vermelho que manchou minha boca, e seu perfume que grudou em meu moletom, algum tempo depois ela entrou em mim, tão rápido que não consegui nem compreender, seu beijo manchou tudo o que havia dentro de mim de uma forma que eu não podia enxergar com clareza, aquele sorriso e aquele olhar profundo que saem de dentro de sua alma, me marcou intrinsecamente. Por um momento eu pude acreditar que tudo seria diferente, e que o fim, seria apenas um inicio sereno de algo maior, não novamente essa truculenta viagem que sempre enfrento.
Seu corpo deitado sob o meu colo, o escuro lá de fora, a lua que clareava levemente seu rosto enquanto ela me contava sobre o seu  dia, me contava sobre seus sentimentos, enquanto expressava subjetivamente sua carência e me pedia um abraço apertado, um beijo demorado, não era nada físico, acredito que seu corpo era só a ligação entre o que ela transmitia, e o que eu sentia, uma forma de proporcionar calma e serenidade, uma forma de me deixar tranquilo em saber que ela estava ali mesmo quando todos viraram a costas, e que dizia quem jamais me deixaria, e que até que me amava. Mas foi um sim que mudou tudo, que meu medo veio à tona, que eu olhava para ela e com medo de perdê-la e acabei perdendo, olhar em seus olhos e ouvir um sim, não para minha pergunta quando a indaguei sobre ficar comigo, mas quando perguntei se havia outra pessoa em sua vida, e foi esse sentimento por essa pessoa, que fez de tudo o que eu senti se tornar uma mediocridade, mesmo o mais profundo “Não vou te deixar nunca” garantia para mim a possibilidade de saber que a teria novamente, sentada em uma praça olhando para mim, deitada em meu colo em algum lugar qualquer apenas tendo devaneios sobre nossas vidas, e jamais a veria fazer qualquer coisa que não fosse responder meu bom dia de manhã. Eu não existo mais para ela, o que sobrou foi minha sombra, apenas uma leve marca de alguém que passou por ali, só mais um.
As crônicas poderiam partir do meu sonho, de imaginações e alucinações que tenho quando não me encontro em vigília, mas não são, estes apenas são consequências do meu dia, são apenas profundas palavras que vagam dentro de mim, não posso mais aceitar e tentar ser frio, não faz parte de quem eu sou, por mais que eu tente sê-lo, por mais que tente absorver o mínimo possível, um sorriso e uma troca de olhar me atingem como um tiro, que me ferem e deixam uma cicatriz.
Lembro-me da primeira vez que escrevi um texto, foi para apresentar em sala de aula, e mesmo não tendo vaidade alguma, acreditando serem todos em grosso modo uma merda, as pessoas prestam atenção quando eu escrevo, e sinto que eternizo as pessoas em palavras mesmo sem deixar os nomes, no primeiro texto lembro que já era frustrado, que comparei um homem que se apaixona por uma mulher em um lugar escuro, mas que no final tudo era um sonho e ele acorda assustado com um trovão em seu quarto, e que embora em seu quarto tudo estivesse tranquilo, ele se sentiu mais próximo dos eventos lá fora, tempestades que o assombraram e assustaram, esse homem era eu, e mesmo depois de alguns anos não vejo nada diferente, apenas que aprendi a fugir, ou acreditava ter aprendido, até ter sido afrontado por tudo isso novamente.
As lagrimas jamais escorrem, mas as simples palavras parecem sair como agua, talvez eu chore escrevendo, talvez meu próximo texto seja sobre a mesma pessoa em lagrimas diferente.

O meu sorriso é saudade, e o seu?

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