Já faz algum tempo que tenho sentimentos dos quais não
consigo coloca-los em um texto. Motivo? Talvez seja algo de algum lugar tão
profundo que ainda não conheço.
Em sonho posso vê-la sorri para coisas banais, em sonho ela
sorri quando fazem alguma piada que somos algo além do que parecemos ser, ela
sorri com satisfação. Mas quando acordo, e noto que aquilo foi um sonho, e que
posso não ter seu sorriso disparado contra mim, me perco, e volto a dormir
esperando acordar no mundo dos sonhos.
Vê-la indo embora é triste, mas a partida é rotina da minha
vida, assim como a chegada é raridade. Vejo muitos indo e poucos vindo e desses
poucos, são menos ainda aqueles que querem ficar.
Era a tarde, eu estava cansado e resolvi me deitar, não
muito tempo levei até comecei a dormir, e talvez ali, tenha tido uma das experiências
mais vividas enquanto longe do meu estado de vigília. Um sonho, uma noite, e
algo que me marcaria profundamente.
Desci do carro parando a margem da pista, algo havia de
errado pois ele estava apenas com os faróis ligados e nada mais funcionava, nem
o radio, nem a partida, nem as luzes. O que acontecera eu realmente não fui
capaz de entender, então abri a porta, com a vista um pouco embaçada por estar muito escuro
avistei longe pequenas luzes, teria de atravessar um trecho sozinho e vazio,
apenas com a luz natural da lua, que naquela noite clareava o pasto vazio a
minha volta, com apenas algumas arvores quase secas, a lua estava grande e
intensa, que quase ofuscava com seu brilhos as estrelas ao redor.
Caminhei, a temperatura estava amena, e eu vestia apenas um
fino casaco sob uma camiseta preta sem estampa. Conforme me aproximava da luz,
comecei a identificar que era uma pousada, mas de todas as casas apenas duas se
encontravam acesas, e uma com uma fraca luz como se fosse uma lareira ou um
abajur, já que pela janela retro de madeira, apenas atravessava uma fraca e
amarela luz.
Quando passei pela placa que dizia o nome do local, acabei
reparando apenas nas primeiras letras “eso”, a placa era em madeira talhada e
envernizada, mas estava um pouco gasta, talvez por estar presa a uma corrente
que com o vento a faria bater contra a arvore que estava próxima, não me
importei com isso, naquele momento eu precisava de um celular, já que o meu
estava sem bateria e eu sem carro.
Aproximei-me de um balcão, a janela estava fechada, toquei
um interfone que fez uma campainha grave soar dentro de uma das pequenas casas
naquele lugar. Esperei um tempo, até que escutei a porta abrir, o balcão estava
de frente para as casas, eu estava de costas nesse momento esperando que alguém
ali me respondesse, e foi então quando me virei devagar para observar que
vinha.
Um velho saiu da casa, me perguntando o que havia acontecido,
pois era raro aquela hora da noite aparecer alguém a procura de um chalet. Com
uma cara marcada pelo tempo, e um claro mal humor no olhar, ele vestia uma
calça simples de cetim, e uma blusa manga longa. Seus ralos cabelos se mostraram
quando se aproximou da luz que marcava o balcão.
Expliquei a situação, e ele então muito compreensivo disse
que não possuíam telefones no lugar, que teria de ficar ali até o amanhecer e
pedir para alguém, pois durante a manha alguns comerciantes iam até o local
para vender comidas e artesanatos, tudo feito nas fazendas ao redor, que era
marcado por alguns lugares naturais que se tornaram pontos turísticos, disse
que tudo bem, havia algum trocado ainda
na carteira, e disse que precisaria ir em algum banco para pagar pagar o
restante da estadia. O senhor compreensivo aceitou apenas o dinheiro que tinha,
e disse que era o suficiente.
Entrei no chalet número 0067, havia apenas 5 ou seis
daqueles, não entendi a numeração. O lugar por dentro era simples, uma cama com
um tecido xadrez por cima, duas poltronas defronte a uma lareira e uma
televisão no canto, o chão era em taco velho, e o banheiro apertado com um
chuveiro que quase não esquentava. Por que as pessoas gostam tanto dessa simplicidade?
Me acomodei, cobri apenas meus pés que estavam gelados, e
tentei dormir, mas na minha mente apenas a preocupação do que faria no dia
seguinte. Foi quando ouvi no chalet ao lado, aquele que estava com pouca luz, alguém
mexer em algum tipo de metal, o que de fato era não sei, talvez alguma comida
guardada na pequena geladeira que o local possuía. Resolvi me levantar, e ir
até a porta, já que a pessoa estava acordada, talvez tivesse um celular, o
mesmo que eu precisasse para ligar para o seguro.
Bati levemente 3 vezes na porta, e não fui atendido, esperei
alguns minutos e bati novamente um pouco mais forte, eu escutava um barulho mas
não sabia o motivo de não ser atendido. Resolvi não mais incomodar, voltei ao
meu quarto e resolvi deitar-me. Em poucos minutos peguei no sono, deveria
ser umas 2 ou 3 da manhã.
Acordei com um cheiro de café, da minha janela vi um longo
cabelo negro sentado e jogado nas costas, vestida com uma roupa simples e
branca. Sai do meu chalet e fui em direção a ela, levemente ela virou a cabeça em minha direção,
mas não olhando para mim, seu olhar profundo mirava alguma outra coisa, seus traços
eram perfeitos, o nariz muito bem desenhado, a boca contornada, os olhos
tentando dizer algo, senti meu corpo atônito, e foi quando ela esboçou um sorriso,
parecia que o próprio Deus havia a desenhado, era tudo tão perfeito e divino
que me criava uma sensação de paz, uma sensação que parecia ser provocada por
anos de confiança e convivência, uma sensação que nunca soube explicar, e nunca
a senti, talvez jamais a sentirei de novo, a roupa em seu corpo parecia ter
sido esculpida por um daqueles mestres gregos que tentavam representar a
perfeição, um vestido simples e branco caia em seu corpo como um manto que veio
para confortar. E o seu olhar ainda continuava fazendo par com seu sorriso
querendo dizer alguém além do obvio, algo vindo de uma fenda tão profunda que
talvez até mesmo aqueles que queiram, jamais conseguirão mergulhar.
Mas ela não me viu, levantou, e passou reto por mim, sem
olhar. Seu perfume doce marcava todo o ambiente, e todos a sua volta a olhavam,
havia algo em sua essência, talvez uma energia que a cercasse que fizesse com
que todos quisessem conhece-la.
Eu não entendi porque não fui visto, e nem por ninguém naquele
ambiente, andei por 2 ou 3 pessoas, e quando chegava para pedir ajuda elas
partiam. Ninguém ali parecia querer me ouvir, exceto aquele velho senhor, que
agora havia sumido, e no seu lugar no balcão, um jovem com cabelo bem
organizado havia estado.
Me aproximei dele, e repeti umas 3 vezes o nome em seu crachá,
mas ele simplesmente fingia não me ver, e foi quando me dei conta do que estava
acontecendo. Acima perto de seu computador, em uma prateleira de madeira
antiga, havia um porta retrato, um velho, o mesmo velho que vi na noite
anterior, junto de sua mulher com a frase no porta retrato: “Deixou saudades”,
e foi quando me dei conta de que eu estava morto.
Senti um choque pelo corpo, olhei para trás e de longe
avistei aquela mesma pessoa do chalet ao lado sentada em um banco de madeira,
observando com um olhar distante o nada, talvez estivesse apenas olhando para
dentro de si mesma.
Corri em direção ao carro, para ver o que realmente tinha
acontecido, pois estava perdido, não sabia o que estava acontecendo, foi quando
observei a placa e pude ver o nome completo do lugar: “esotérico”, que se
levarmos ao grego significa interior. Só ai me dei conta de que era um sonho e
foi quando rapidamente consegui acordar.
As metáforas, por muito, foram a única forma de conseguir
buscar o que tenho dentro de mim, que parece tão confuso, comparando aquilo que
sinto, é o único jeito de não me perder.
O sorriso, e os momentos simples, como estar por muito tempo
apenas observando-a, irão marcar intensamente meu interior, por muitas vezes,
sentirei falta de não poder nem ao menos dirigir a ela uma palavra verdadeira,
mas que sua essência incrível, seu sorriso, e aquele beijo para sempre estarão
marcado dentro de mim. Para sempre. Mesmo que eu tente morrer com tudo o que
sinta, não conseguirei escapar de nenhum fantasma que voltara para me fazer
lembrar que poderia ter sido melhor.
Eu vejo as pessoas indo, e as sinto indo, muitas vezes
imploro para ficarem, mas sei que é difícil lidar com alguém que não sabe lidar
consigo mesmo. No passado as pessoas consertavam uma as outras, hoje apenas
trocam, é muito mais simples e fácil, eu também o faria se me fosse possível.
Quem sabe um dia eu não tomo o sorriso para mim, e o sinto
sendo disparado apenas por estar ali?
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