Onde você está?

Existe uma garota, e ela está sentada de costas, quando seu rosto vira contra a luz, a sombra contorna algo que parece próprio da natureza, intocável, puro e simples. Seus olhos estão vazios olhando o que há ao seu redor, ela está bem consigo mesma, e consigo mesma ela não precisa estar com mais ninguém.
Eu sou um caminhante que vago e reparo nas boas histórias, mas posso dizer que tudo talvez tenha sido diferente com ela, digo talvez, porque não quero acreditar dentro de mim mesmo nesse “tenha”, não quero um passado com tanta memória, para que ela não seja felicidade e sim dor. Não há passado naquilo que arrasto dia após, é presente, e parece que nunca deixará de ser.
Os momentos, as memórias, elas não têm forma. Enquanto ela segura minha mão e seu olhar atravessa o meu, olhando em algo que nem eu sou capaz de acreditar que existe, sinto que os momentos e as memorias são apenas um agradecimento que devo a ela, por me deixar ser tão bom, por me deixar sem quem eu sou, e viver neste privilegio incrível que é estar ao seu lado.
Seu perfume ainda está preso ao meu corpo, mas não onde posso sentir, e sim onde ele pode fazer falta. A tranquilidade e calma que sempre me foram capazes de criar são tão profundos, que fico desesperado quando estou perdido, a procura apenas de um lugar quente com sua voz e seu perfume para me acalmar.
Talvez eu seja dependente de mais, na verdade, eu sou. E por isto a culpa é toda minha, eu deveria aprender a viver comigo mesmo, mas se alguém como ela não foi capaz, como alguém igual eu seria? Não sei me expressar, não sei me acalmar. Sou uma criança mimada que erra e nunca aprende, que sente e nunca passa. Vivo a todo momento nesta busca, na busca de mim mesmo, mas não posso ser quem sou quando estou sozinho, preciso fingir estar em outro lugar e ser outra pessoa, para não ter que viver com o peso das minhas consequências, a consequência de atos que não consigo mudar. A seta que aponta para o lugar certo me confunde, talvez eu não a enxergue, erros bem-intencionados me tornaram o problema dos problemas, já que eles não podem existir sem causa, eu.

Costumávamos comprar algo para comer e sentar naquele chão de concreto olhando para as pessoas caminharem, obstinadas com seus destinos e preocupadas com seu futuro. Enquanto eu, que estava ali embaixo da sombra de um belo ipê, não tinha com o que me preocupar, encostar minha cabeça em seu ombro, escutar o barulho da sua mastigação, falar alguma besteira para sentir seu riso surgir, era tudo o que precisava, sempre foi tudo o que quis. Mas como disse, tive que me tornar outra pessoa para fugir da minha própria dor, de quem sou, e acabo me perdendo na maior parte do tempo. E agora? Agora não tenho sua mão para segurar, vivo e apenas vivo, empurro cada dia com as preocupações de uma vida adulta. Mas neste momento, na calada da noite, quando me deito, meu coração me sufoca, meu peito urra; eu preciso desejar o rotineiro boa noite, eu preciso arrumar o despertador para dar o seu primeiro bom dia e um bom trabalho.... Ah é, ela já não existe mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário