Uma verdade sobre todos nós

Eu não algum tipo de referência, ou qualquer um que é capaz de fazer uma análise profunda sobre o que tenho a falar. Na verdade, eu não sou coisa alguma, apenas sinto e vivo como todos, e quase nunca faço a coisa a certa.
Ele já era idoso, um senhor com seus 70 e poucos anos, usava camisa lisa e uma bermuda surrada, seu óculos era de um arame fino e estava protegendo seus olhos que miravam para o pé da garrafa de cerveja vazia e ainda bem gelada sob balcão, e que provavelmente foi esvaziada de gole em gole durante sua estadia prolongada naquele balcão de bar.
Todos nós temos medo de não sermos amados, e de não ser desejado por aqueles que amamos, entre uma emoção e outra costumamos transar, e tudo gira em torno delas. Medo e desejo provavelmente trouxeram todos nós até aqui, e o amor que tanto é falado não parece ser a mesma coisa para todos. E a única verdade é que não queremos terminar como aquele velho, sentados num bar sozinhos, bebendo.
É curioso que tudo estava vazio naquele momento, a garrafa e o lugar onde ele estava, embora existisse um casal em uma mesa atrás dele, nada ali era tão importante quanto, pois me foi mais curioso perceber que existia algo que gritou quando passou perto dele dentro de mim, algo que me doeu profundamente. Foi culpa daquele vazio que parecia estar compondo o ambiente que o cercava, ou o medo de terminar como ele. Não sei qual era realmente sua história, mas ele não tinha uma cara boa, seu olhar era profundo e demorava para se mover, ele não observava as pessoas ao seu redor, muito menos olhoupara a cara do garçom quando trocaram sua cerveja, tudo era desinteressante para ele. 
Este velho estava apenas ali, fazendo algo que todos nós fazemos, mas que para ele parecia ser algo rotineiro e já sem esperança, talvez ele soubesse que estava mais próximo do beijo da morte do que todos os anos que parece ter estado ali bebendo, e agora não há muito o que fazer.
A solidão é uma coisa doente, profunda e mortal, não importa o quão chapado você está, ela simplesmente te abraça para dançar, e não te da escolha para dizer não. Foi observar aquele velho que todas as risadas daquela noite perderam o sentido. Na maior parte do tempo cada um de nós, tanto eu quanto você, bebemos para matar a dor que existe dentro de nós, para ficarmos chapados e trazer o momento para junto da felicidade. Não bebemos ou usamos qualquer outra coisa simplesmente pelo sabor ou porque faz bem, fazemos isso simplesmente para alcançarmos aquele estágio onde a realidade parece mudar, onde parece que somos capazes de desconectar de algo e nos ligar a um pedaço de nós que não conseguimos alcançar sóbrios, e é isso que acontece na maior parte das vezes, fugimos de algo que está dentro, parece ser um bom remédio, mas a verdade é que é apenas uma cortina que fechamos para nos escondermos atrás daquela janela, temos medo da realidade e do mundo que está por trás dela, pois sabemos que não há paisagem alguma, é apenas um monte de cinza vandalizado.

Eu quero dizer que aquele velho ensinou uma verdade sobre todos nós, nós temos medo de tentar viver demais e acabar sentindo de menos, potencializamos tudo e nos escondemos, esse é o final da verdade por trás das garrafas de bebida, das carreiras de cocaína e dos cigarros de maconha. Nos entorpecemos de que o mundo melhor é aquele que não vamos lembrar no dia seguinte, apenas vamos sentir a ressaca chegando e de alguma forma isso é associado a uma boa noite. Mas a verdade é que essa boa noite foi apagada de nós, essa boa noite só é boa porque não lembramos, porque conseguimos fechar a cortina e não enxergar o mundo de concreto e sem graça. Temos medo do tempo chegar, e se vivermos essa boa noite durante todo esse tempo, seremos mais um velho no bar olhando para a única companheira de noites vazias e beijos com manchas de batom de outras boca, e com certeza não seremos o que queríamos ter sido, e muito menos viver o que realmente queríamos ter vivido. A verdade sobre todos nós é que ninguém quer dançar a última dança com a solidão, não vai ter graça ter a garganta molhada e o coração cheio de cachaça quando está ultima dança chegar.

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